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PRIMÓRDIOS - Livro CARTUM 25 Anos

 Tudo começou quando minha mãe, a Dona Yêda, realizava um ritual sonífero, todas as noites, antes de dormir. Ela me levantava até a prateleira onde estava a sua coleção de gibis e eu observava as capas das revistas, enquanto decidia qual seria o escolhido para ser lido naquela noite. Assim pude compreender os fonemas e aprender a ler.



Em pouco tempo eu já estava também escrevendo palavras simples, intuitivamente, depois de ter treinado bem a leitura por algum tempo. A primeira palavra foi o meu próprio nome com giz em um quadro negro de brinquedo da minha irmã mais velha, deixando ela perplexa.

Além de ler e escrever, passei a desenhar também. Foi um período da minha vida em que residi em apartamento e ficava muitas horas enfurnado no meu quarto inventando histórias em quadrinhos. O que parecia ser um castigo, pra mim era um imenso prazer. Os desenhos eram infantis e toscos como os da maioria das crianças desta idade, porém eu sempre visualizava um patamar acima na qualidade dos desenhos e praticava muito até atingir este novo nível.

Depois que assisti o filme “E.T. o Extraterrestre” no cinema (1982), passei a desenhar bastante o tal alienígena, e meu pai, o Sr. Aldo, percebeu que estava ficando bem caprichado. Para me incentivar, ele começou a levar os desenhos (naquele tempo ainda não tinha e-mail) na redação do jornal Gazeta do Povo, que tinha um suplemento infantil em todas as edições de sábado, chamado "Gazetinha", no qual havia um setor com desenhos feitos pelos leitores, e lá estava o meu desenho, com o meu nome escrito logo embaixo. Eu me sentia realizado com a exposição da minha arte a um grande público.

Minha mãe me incentivou a ler quadrinhos e meu pai nunca deixou faltar material de desenho. Era só pedir que ele logo trazia aquele embrulho mágico, que era meu presente favorito: uma resma com 100 folhas de papel sulfite “Chamequinho” e duas canetas “Ultrafine”, da Paper-Mate. Aquilo me bastava para produzir pelo menos mais umas dez edições. Comecei a desenhar quadrinhos autorais aos 5 anos de idade e tenho guardado até hoje vasto material desenhado entre os meus 9 e 14 anos, transparecendo uma sutil, porém, nítida evolução de um ano para o outro, causada pela prática constante.

Foram dezenas de personagens criados na infância. Teve o milionário “Pó Bretão” e seu mordomo “Jarbas”, o “João Banana”, e muitos outros... sempre pessoas comuns, sem superpoderes, mas com aspectos exagerados em suas personalidades. O que mais durou foi a Turma do “Chineca” (inspirado em um delicioso pão com farofa doce em cima, que a Dona Yêda fazia), que resultou em mais de 40 gibis desenvolvidos ao longo de 6 anos (de 1985 a 1990). Minha paixão sempre foram os quadrinhos. Durante toda a infância, eu entrava nas bancas de revista como um urso enfia a cabeça num favo de mel e me lambuzava. Eu sempre sabia o dia em que chegavam os lançamentos que eu acompanhava e adquiria revistinhas no limite que a nossa capacidade financeira permitia.

Cheguei a ter uma coleção com cerca de 1200 revistas em quadrinhos, das quais me desfiz na mudança que fiz de Curitiba para Brusque, em 1986, assim que completei 12 anos. Vendi uma parte num sebo, pra comprar cartuchos do videogame Atari e guardei só o essencial. Mas me arrependi amargamente quando descobri que jogos eletrônicos são entretenimento passageiro e leitura é pra vida toda. Na sequência, iniciei uma nova coleção que chegou a ter uns 800 gibis, mas sempre com saudades daqueles dos anos 1970 e 80, que me marcaram profundamente.

Aos 15 anos, comecei a trabalhar em horário integral e estudar a noite (sim, naquele tempo se trabalhava com essa idade). Devido a isso, interrompi a produção dos gibis que eu costumava fazer na infância. Mas nos lugares por onde passei, sempre deixei um rastro de charges e caricaturas inspiradas nos fatos ocorridos com os colegas de colégio ou de trabalho. Na adolescência, eu lia os quadrinhos dos brasileiros Angeli, Glauco Villas Boas e Laerte e dos franceses Frank Margerin e Janu, além da sempre hilária Revista Mad.

De 1996 a 1999, trabalhei na administração do Stop Shop, o Ninho da Malha, um importante centro comercial do vestuário brusquense. Minha aptidão artística foi detectada e logo eu estava publicando meus desenhos no jornal "Notícias do Ninho", que circulava internamente, entre lojistas, funcionários e guias de compras. Todas as semanas era publicada uma nova edição, com uma charge envolvendo alguém da equipe de funcionários do shopping e uma tirinha do personagem "Alaor, o Lojista". Divertindo os leitores do periódico e aumentando um pouco meus rendimentos durante quase dois anos. Foi meu primeiro trabalho artístico remunerado.

Dentro do Stop Shop, ainda conheci o pessoal do primeiro provedor de internet brusquense, o BILUNET. Os sócios Fabiano Sabino e Sérgio de Pinho publicaram tiras semanais do personagem "Esponja, o Bebum", entre outros quadrinhos, ainda no final dos anos 90. Foi a minha primeira divulgação virtual.

Estas duas oportunidades bastaram para tornar a produção artística mais constante em minha vida.

 

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