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OS MARINHEIROS ALEMÃES


... Em dezembro de 1934, a imprensa publicava a nota sobre a vinda dos visitantes: “Visita de uma turma de guardas do Cruzador alemão Karlsruhe”, e acrescentava: “Como já é do conhecimento do público ancorará, provavelmente, de 14 a 18 do corrente o Cruzador alemão Karlsruhe na enseada de Cabeçudas” [1]. A ligação cultural com a pátria mãe seria acrescida por esta visita.

Para a comunidade local, para quem o uso da língua alemã era bastante forte e os laços culturais com a Alemanha eram valorizados, os visitantes de dezembro de 1934 representavam muito. Citamos aqui palavras da professora e pesquisadora Giralda Seyferth acerca do uso da língua e de sua importância nos grupos germânicos: “A identidade étnica teuto-brasileira e a própria organização do grupo étnico se baseia na conservação da língua alemã (...)” [2].



O Cruzador Karlsruhe, navio de guerra alemão, ancorado em nosso litoral, traria sua tripulação para uma visita oficial à cidade. As autoridades “... civis e eclesiásticas locais, representantes da imprensa e todas as diretorias das nossas sociedades, para tratarem da organização de um programa condigno de recepção aos bravos marinheiros da marinhas de guerra alemã[3]” reuniram-se no Salão dos Atiradores, a convite da diretoria da Sociedade Ginástica, no dia 04 de dezembro, às 20 horas. Tudo fora devidamente oranizado. Criaram-se comissões de alojamento; de festejos; de finanças. “A condução dos marinheiros será feita em caminhões e autos particulares, tendo posto a disposição, para esse fim os seus autos os senhores Fernando Boettger, Oswaldo von Buettner, Hugo Schlösser, Guilherme Renaux, Walter Bueckmannn”.

O cronograma estabelecido previa a recepção dos visitantes na altura da casa do sr. Alexandre Gevaerd, momento em que seriam recebidos pelos representantes da comunidade. Naquele dia 15 de dezembro de 1934, às 09:30 da manhã o “( ...)Tiro de Guerra 317, sob o comando do senhor tenente  Mario Figueiredo, conduzindo a sua bandeira, rompeu marcha para a Rua Barão do Rio Branco onde se elevava um arco festivo e seria feita a primeira homenagem aos visitantes”[4]. Sob forte presença de autoridades e entidades locais os visitantes foram recepcionados antes de chegarem ao centro da cidade.

Frente a tão ilustre visita, as entidades foram organizadas e colocadas em forma. Tomamos conhecimento da presença de representantes da Sociedade Ginástica, Sociedade de Atiradores, Sociedade dos Cantores, Clube Esportivo Paysandu, Sport Club Brusquense, a Associação Recreativa Musical, Tênis Clube e a Jazz Band América, todos com suas bandeiras e estandartes. Estiveram presentes, ainda, um terço da Milícia Integralista e a Banda Musical Concórdia. “(...) 



[1] O Rebate, 08 de dezembro de 1934. ASAB.
[2] SEYFERTH, Giralda. op cit p. 105.
[3] O Rebate, 08 de dezembro de 1934. ASAB.
[4] O Progresso, 21 de dezembro de 1934. ASAB.




Pouco tempo depois chegava ao local o contingente do Karlsruhe composto de 3 oficiais, 3 suboficiais e 50 aspirantes e marujos, sob o comando do Capitão de Corveta Otto Kähler”[1].

Realizados os cumprimentos e proferido o discurso oficial pelo sr. Erich Bueckmann, a comitiva e seus visitantes, seguiram, em cortejo, tendo a frente a Banda Musical Concórdia, percorrendo a Rua Barão do Rio Branco, passando pela Avenida João Pessoa até o Paço Municipal.

Ainda durante este primeiro dia, com o objetivo de causar boa impressão aos patrícios, fora prevista uma parada oficial diante do prédio da prefeitura. Ali, perfilados conforme a tradição militar, depois de marcharem pela avenida central, fora pronunciado o discurso do prefeito municipal, Rodolfo V. Tietzmann. Pronunnciado em português o discurso fora traduzido para o alemão pelo Pastor Ferdinand Graestch. Depois da execução dos hinos nacionais, da Alemanha e do Brasil, e dos ‘vivas’ a ambos os países, o evento foi finalizado.


Em meio aos marinheiros perfilados vê-se a bandeira nazista, tornada símbolo do Estado alemão depois da ascensão de Adolf Hitler. Percebe-se a saudação nazista, feita em homengem ao Füher alemão, sendo executada pelos participantes do evento. Diversos braços estão esticados, inclusive de populares e integrantes dos ‘camisas verdes’. Em meio a tudo isso a ‘Joana’ assite a cena, tendo aos seus pés um cartaz do Cine Guarany anunciado o filme do momento.

Terminada a cerimôia de recepção os visitantes foram encaminhados para seus ‘alojamentos’. Os marinhairos foram hospedados em casas de populares. De forma a organizar a hospedagem dos visitantes, o poder público, dias antes, procedeu a um tipo de cadastramento para organizar os interessados em receber os alemães. O jornal O Rebate noticiava, no dia 8 de dezembro, que ao final da cerimônia todos “(...) os alojadores deverão comparecer à prefeitura para receber os seus hóspedes. À noite, às 8 horas, haverá uma sessão recreativa pública no salão da Ginástica”.

Na Sociedade Ginástica eventos foram preparados para entreter os visitantes. Sobre o que realizaram na tarde de sábado, dia 15 de dezembro, a imprensa nada comenta. Nem no cronograma oficial consta alguma informação. Mas a noite foi passada naquela sociedade. Ali, local organizado para a prática de esportes, “...  Constou do programa exercícios dos ginástas nas paralelas e barra fixa e depois várias canções alemãs. Em seguida uma partida dançante  abrilhantada pelo Jazz Band  Ideal”. (O Progresso)

A comunidade de origem germânica de Brusque devia estar empolgada com a visita de alemães, conhecedores das maravilhas e modernidades dos grandes centros da Alemanha. Hospedar tais figuras representava certa distinção perante a comunidade. Sentar-se à mesa com um verdadeiro integrante das forças armadas da Alemanha, conversar com ele na língua de Lutero, era certamente um ponto marcante na vida daqueles brusquenses que receberam em suas casas tais hóspedes.

Para o segundo dia, 16 de dezembro, um domingo, a comissão resolveu deixar a manhã livre, sem eventos oficiais e nenhuma reunião coletiva. O objetivo era dar tempo livre para que os visitantes circulassem pela cidade e arredores. Tal situação nos leva a pensar sobre a desgastante viagem a bordo da nave de guerra, os meses vividos em alto mar, uma tripulação masculina, sem a presença de familiares, meio dia de folga para aproveitarem os prazeres de uma bela manhã na formosa Vila certamente era bem vindo.

Através das memórias do médico João Antônio Schaefer, popularmente conhecido por Dr. Nica, que vivenciou o episódio da visita dos marinheiros alemães a Brusque, é possível perceber certo ‘receio’ no coração da juventude masculina local, não era pra menos, a ‘concorrência amorosa’ aumentara! Viajando em suas memórias Dr. Nica relembra o fato: “... Há anos atrás ocorreu um desfile na cidade... veio um Cruzador alemão, parou em Itajaí e desfilou aqui. Lembro-me bem! Nós éramos uns ‘guris’ de 14/15 anos”, e em seguida adicionava: “Karlsruhe era o nome! O nome do navio era Karlsruhe”. As lembranças do passado estalavam, tomavam forma. Acerca das alterações provocadas no cotidiano podemos perceber através desse relato que as ‘mulheres’ só estavam interessadas nos marinheiros: “É... elas só namoravam os marinheiros... é lógico, eram rapazes jovens, olhos azuis...”. E por que não?



[1] O Progresso, 21 de dezembro de 1934. ASAB.

Pesquisa: Robson Gallassini (in memoriam)

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