A cidade recebeu ao longo da história, inúmeros visitantes ilustres, entre eles podemos citar governadores, secretários de estado, generais, deputados, marinheiros alemães, como vimos a pouco, e vários outros personagens ilustres. Mas uma das visitas, embora passageira, igualmente marcante foi a passagem do dirigível alemão Hindenburg, que cruzou os céus na manhã do dia 1 de dezembro de 1936.
Vasculhando as publicações da década de 1930 nos deparamos com a passagem do dirigível Hindenburg sobre a cidade de Brusque, fato que marcou a memória coletiva local. Mas antes mesmo do Hindenburg passar por aqui, notícias acerca dessas formidáveis aeronaves já povoavam as páginas dos jornais.
Em notícia publicada em 30 de julho de 1934, o semanal ‘O Rebate’ informava sobre a passagem do dirigível alemão sobre a cidade. “A nossa população aguardou ansiosa a passagem do ‘Graf Zepelin’ sobre a cidade na noite de quinta-feira”. Era esperada sua passagem também sobre a capital, por volta da meia noite de quinta-feira, ao passo que o articulista acrescenta: “não sendo notada sua passagem”.
As dúvidas acerca do caminho tomado pelo dirigível se fizeram presentes. O semanal local, que recebia informações da Agência Condor, com sede na capital, informava que na viagem de volta a aeronave deveria ter passado sob as cidades de Brusque, Blumenau e Joinvile, mas que devido ao mal tempo não foi possível avistá-la. Na mesma nota, encontra-se registrado de que a dita viagem fora realizada devido aos ‘constantes pedidos do povo catarinense’.
Em 30 de março de 1936, a empresa Zeppelin inaugurou uma linha regular de vôos para o Rio de Janeiro com o maior e mais moderno dirigível da época: Hindenburg. O seu projeto foi encomendado pelo governo de Adolf Hitler, visando divulgar a superioridade tecnológica do país. A gigantesca aeronave era uma maneira rápida, porém cara, de se atravessar o oceano.
A população brusquense viu o nascer do dia 1º de dezembro de 1936 com outros olhos. Com os olhares voltados para o firmamento aguardavam a passagem da aeronave. Homens, mulheres e crianças estavam ansiosas para ver a tão formidável máquina voadora produzida pelos alemães. Notícias do dia anterior colocaram a população em vigília. A ‘formidável aeronave’ passaria sobre a cidade. Os moradores despertaram cedo naquela manhã para não perderem o acontecimento.
Junto ao Dr. João Antônio Schaefer, popularmente conhecido por Dr. Nica, médico de longa data na cidade, obtivemos um relato sobre esse evento. Suas palavras nos auxiliam a desvendar os detalhes daquela manhã de dezembro de 1936. Nascido em 1918, em parto realizado em casa, contava com 18 anos quando da passagem da aeronave. Da sacada da casa de seus pais, Nica pôde observar o dirigível alemão cruzar os céus da cidade.
(...) foi anunciado sobre a passagem do Zeppelin, que iria percorrer a América do Sul e cidades alemãs de Santa Catarina. Ele passou pro aqui por volta das 5:00 horas da manhã. Na minha casa tinha uma sacada, minha mãe acordou-se, nos tirou da cama para que nós pudéssemos ver a aeronave. Viu-se nitidamente, porque eles chegaram a descer... Sobrevoar a cidade a uma altura de cerca de 400 ou 600 metros. Dava pra ouvir e ver nitidamente! Daqui eles passaram para Blumenau. Eu estava na varanda.
A rotina da cidade seria quebrada pela passagem daquela ‘soberba’ máquina voadora. Segundo o cronista do jornal ‘O Rebate’, a população trazia estampado nas faces “... um sorriso, uma admiração antecipada, um traço de entusiasmo (...)”.
Um ponto ‘luminoso é avistado vindo da direção norte, ouve-se um leve roncar de motores alados’. Era ela! A formosa nave voadora tomava corpo diante dos olhares encantados dos moradores locais. “Instantes depois, suavemente, como que deslizando no ar, soberbo, magnífico, o Hindenburg voava sobre a nossa cidade (...)” escreveria o jornalista dias depois. Enquanto a nave cruzava os ares, aqui em baixo, com os olhares voltados para o alto “... Braços se erguem numa saudação, lenços se agitam, vozes se erguem, numa homenagem a vitória do gênio criador da mais bela concepção aeronáutica da nossa época (...)”.
Nas páginas do semanal ‘O Progresso’ o fato também foi noticiado, e porque não seria, era o acontecimento do ano. Segundo esse órgão de imprensa, a nave passou a “... grande altura ostentando à ré a cruz suástica do novo Reich e no bojo em caracteres negros o nome de Hindenburg, centenas de braços se erguem numa grande saudação expressiva. Lenços se agitam, palmas reboam, frases de entusiasmo se ouvem e sobre a cidade que aclama, que saúda, o Hindenburg faz o seu passeio aéreo e ruma para o litoral, sereno, luzidio sob a luz brilhante de um sol de dezembro”.
As notícias veiculadas na imprensa local traziam detalhes a respeito da poderosa nave voadora. “O Hindenburg tem a bordo uma guarnição de quarenta e cinco homens e possui acomodações para setenta passageiros. A travessia do Oceano Atlântico o “Hindenburg” faz em vinte e sete horas”.
A passagem do famoso dirigível marcou a memória de uma geração, como também foi perpetuada por fotografias tiradas naquela manhã. Ressaltava-se o engenho e a criatividade germânica, como também o seu grande desenvolvimento científico-tecnológico. A esse respeito Dr. Nica, pessoa que esteve presente ao fato, fez a seguinte apreciação: “As pessoas ficaram encantadas pelo que o Hitler estava mandando fazer... porque aquilo era propaganda da Alemanha. Da grande Alemanha!”.
Na semana seguinte o comércio local se aproveitava do sucesso da passagem da aeronave para lançar uma campanha de vendas para o natal, que se aproximava. “A vinda do dirigível Hindenburg causou nesta cidade uma grande sensação incomparável que permanecerá por longo tempo no espírito da nossa população”, e na seqüência arrematava: “Mas outra sensação não menos intensa está provocando a Livraria Hélios de Alvino Graf, com a sua fantástica venda de enfeites para árvore de natal, artigos para presentes, para senhorinhas e senhoras. Crianças, moços e homens encontrarão também artigos necessários (...)”. Além dos costumeiros enfeites de natal, livros de todos os tipos, a livraria estava oferecendo “fotografias do visitante Hindenburg”.
O imenso colosso voador teve vida curta, a exatos 155 dias depois de sobrevoar a cidade de Brusque, foi atingido por um incêndio. Na noite de 6 de maio de 1937, o gigantesco dirigível Hindenburg preparava-se para descer na base de Lakehurst, em Nova Jersey, nos Estados Unidos, com 97 ocupantes a bordo, sendo 36 passageiros e 61 tripulantes, vindos da Alemanha. Durante as manobras de pouso, um incêndio tomou conta da aeronave e o saldo foi de 13 passageiros e 22 tripulantes mortos e um técnico em solo, no total de 36 pessoas.

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